O que são pontos cantados na Umbanda?

Você já percebeu como uma música pode mudar completamente o ambiente e até a maneira como você se sente?

Uma música pode trazer alegria, acalmar, despertar lembranças, reunir pessoas ou simplesmente criar um determinado clima.

Você já ouviu uma música justamente em um momento em que precisava dela?

Às vezes, uma música nos acalma. Outras vezes, traz coragem, faz companhia quando estamos sozinhos ou simplesmente muda a maneira como estamos nos sentindo.

Talvez você já tenha passado por isso: uma música começa a tocar e, de repente, parece que ela está falando exatamente com você.

Mas por que isso acontece?

Talvez porque a música não seja apenas aquilo que ouvimos. Ela também pode se encontrar com aquilo que estamos vivendo.

E isso acontece de maneiras diferentes para cada pessoa.

Os pontos cantados da Umbanda também podem ser vivenciados dessa forma.

Por que algumas músicas parecem conversar com a gente?

Pense em um show.

Centenas de pessoas podem estar ouvindo a mesma música, no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Mesmo assim, cada uma pode viver aquele momento  e sentir de uma maneira diferente.

Uma pessoa se emociona.

Outra lembra alguém.

Outra encontra força em uma determinada frase.

Outra sente alegria.

Outra simplesmente gosta da música.

E outra pode não sentir nada especial.

A música encontra cada pessoa a partir daquilo que ela está vivendo, de suas memórias, sensibilidades, experiências e do momento pelo qual está passando.

Por isso, uma música que hoje parece apenas uma música pode, em outro momento, ganhar um significado completamente diferente.

E o que isso tem a ver com os pontos cantados?

Os pontos cantados são cantos utilizados na tradição umbandista e podem estar relacionados aos Orixás, às linhas, às entidades, a determinados momentos e aos fundamentos de cada casa.

Mas existe algo importante que talvez você ainda não tenha pensado:

um ponto cantado não precisa fazer parte somente da experiência dentro de uma gira.

Você pode ouvi-lo em casa, durante uma caminhada, em um momento de oração, enquanto reflete sobre alguma situação ou simplesmente porque sentiu vontade de escutá-lo.

Assim como uma música pode acompanhar você em diferentes momentos da vida, um ponto também pode fazer parte da sua experiência cotidiana.

E é justamente aí que surge uma pergunta interessante:

o que um ponto cantado pode representar para você naquele momento da sua vida?

Todo ponto cantado tem uma função?

Em vez de pensar apenas no significado de um ponto, podemos começar perguntando:

qual é a função desse ponto dentro do contexto em que ele está sendo utilizado?

Um ponto pode ensinar, saudar, chamar, conduzir, expressar, sustentar determinado momento, transmitir valores ou marcar uma passagem dentro de uma prática da Umbanda.

Essas funções também podem se combinar.

Um ponto pode, ao mesmo tempo, transmitir um ensinamento e despertar determinada emoção em quem o escuta.

Por isso, não é necessário imaginar que todos os pontos possuem uma única função ou que todos devem ser compreendidos da mesma maneira.

A função pode depender do ponto, do contexto, da tradição e da casa.

Cada ponto cantado cumpre uma função dentro do contexto em que é utilizado.

Um ponto pode mudar a forma como você se sente?

Pode.

Mas isso não significa que necessariamente acontecerá com você.

Um ponto pode despertar alegria, paz, acolhimento, coragem, firmeza, concentração, emoção ou reflexão em determinada pessoa.

Outra pessoa pode ouvir exatamente o mesmo ponto e não sentir nada especial.

Isso pode depender do momento que você está vivendo, da sua sensibilidade, das suas experiências, das suas memórias e da maneira como aquele canto chega até você.

Na linguagem da Umbanda, essas experiências também podem ser compreendidas a partir da ideia de vibração.

Mas é importante não transformar uma possibilidade em uma regra.

Você não precisa sentir algo porque outra pessoa sentiu.

Não existe uma reação obrigatória.

Às vezes, um canto simplesmente toca você.

Às vezes, ele traz uma sensação de acolhimento em um dia difícil.

Às vezes, desperta alegria.

Às vezes, faz você pensar.

E às vezes não provoca nada naquele momento.

Tudo isso faz parte da experiência humana.

O que os pontos cantados podem ensinar para a nossa vida?

Um ponto pode trazer palavras, histórias, imagens, símbolos e valores.

E talvez você já tenha percebido que algumas coisas só conseguimos compreender quando estamos vivendo determinada situação.

Uma frase que você ouviu muitas vezes pode passar despercebida durante anos. Até que um dia, diante de uma dificuldade, uma perda, uma escolha ou um recomeço, aquela mesma frase ganha outro sentido.

Com os pontos cantados isso também pode acontecer.

Você pode encontrar neles referências a coragem, humildade, respeito, perseverança, acolhimento, fé ou outros valores presentes na tradição.

Mas existe uma diferença importante entre o que o ponto diz, o que a tradição ensina sobre ele e aquilo que você interpreta a partir da sua própria experiência.

Essas coisas podem se relacionar, mas não são necessariamente iguais.

Por isso, ouvir também é uma forma de aprender a observar.

Talvez a pergunta não seja apenas:

“O que esse ponto significa?”

Mas também:

“O que esse ponto está me fazendo perceber neste momento da minha vida?”

Preciso conhecer a Umbanda para ouvir um ponto cantado?

Não. Você pode ouvir um ponto mesmo sem conhecer a Umbanda. Conhecer a tradição e o contexto daquele canto, porém, pode ajudar a compreender melhor o que está sendo apresentado.

Não. Os pontos também podem fazer parte da experiência cotidiana de uma pessoa e podem ser ouvidos em diferentes situações.

Um ponto pode acompanhar você em casa, durante uma caminhada, em um momento de silêncio, de oração, de reflexão ou simplesmente quando sentir vontade de ouvi-lo.

Talvez ele traga acolhimento em um dia difícil. Talvez ajude você a desacelerar. Talvez desperte alegria, coragem ou uma reflexão que estava faltando.

Não é necessário estar diante de um ritual para se relacionar com aquilo que um canto desperta em você.

Ele possui elementos musicais, como melodia, ritmo e voz, mas dentro da Umbanda também pode desempenhar funções religiosas, ritualísticas, simbólicas e comunitárias.

Pode ser uma possibilidade. Um canto pode trazer conforto, acolhimento, reflexão ou companhia para determinada pessoa. Isso não significa que terá o mesmo efeito sobre todas as pessoas.

Porque nós não chegamos diante de uma música, de um canto ou de uma experiência vazios.

Chegamos com a nossa história, nossas memórias, nossas dores, nossas alegrias, nossas crenças e aquilo que estamos vivendo naquele momento.

Talvez um ponto diga algo que você precisava ouvir hoje e que, amanhã, já não provoque a mesma sensação.

O canto é o mesmo. Você é que pode estar diferente.

Pode significar muitas coisas — e talvez seja justamente aí que esteja uma oportunidade de olhar para dentro.

Você pode se emocionar, sentir paz, lembrar de alguém, sentir alegria, estranheza, acolhimento ou até não conseguir explicar o que aconteceu.

Em vez de procurar imediatamente uma explicação, você pode começar por uma pergunta mais simples:

“O que está acontecendo dentro de mim?”

Sentir é uma experiência. A explicação que damos a essa experiência é outra coisa.

Tudo bem.

Nem todo canto precisa provocar uma experiência marcante. Nem toda música toca você da mesma maneira, e isso também vale para os pontos cantados.

Você não precisa sentir aquilo que outra pessoa sente para que sua experiência seja válida.

Às vezes, simplesmente ouvir já é suficiente.

E talvez, em outro momento da vida, aquele mesmo ponto encontre você de uma maneira completamente diferente.

Pode.

Às vezes o ensinamento está nas palavras. Outras vezes, está na reflexão que elas despertam em você.

Talvez uma frase faça você pensar sobre uma escolha que precisa fazer. Talvez lembre você de alguém. Talvez desperte uma pergunta que estava adormecida.

E talvez o mais importante não seja apenas descobrir o que o ponto quer dizer, mas perceber o que ele faz você olhar dentro de si.

Talvez não seja necessário escolher entre os dois.

O sentir pode abrir uma porta.

A reflexão pode ajudar você a atravessá-la.

E o discernimento pode ajudar a perceber o que existe do outro lado.

Na espiritualidade, como na vida, sentir sem refletir pode nos levar a conclusões precipitadas; pensar sem sentir pode nos afastar daquilo que realmente estamos vivendo.

Talvez o caminho esteja justamente em aprender a fazer os dois dialogarem.

Sentir. Pensar. Observar. Discernir.

Conclusão

Você não precisa começar a compreender um ponto cantado tentando descobrir imediatamente o que ele deveria fazer.

Primeiro, escute.

Preste atenção nas palavras.

Observe o que acontece dentro de você.

Talvez venha uma lembrança.

Talvez uma emoção.

Talvez uma sensação de acolhimento.

Talvez um ensinamento.

Talvez nada.

E tudo bem.

A música nos mostra algo interessante: uma mesma experiência pode tocar pessoas diferentes de maneiras diferentes.

Na Umbanda, os pontos cantados carregam também uma dimensão própria da tradição, seus símbolos, seus fundamentos e seus contextos.

Conhecê-los é, portanto, mais do que aprender uma letra.

É começar a perceber o que está sendo cantado, por que está sendo cantado e o que esse canto pode despertar em você.

E talvez, em algum momento, você também se pegue pensando:

“Era exatamente isso que eu precisava ouvir.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima